segunda-feira, setembro 12, 2005


Fez no fim de Agosto um ano que fiz voluntariado missionário em Angola, e ao reler algumas das coisas que escrevi na altura vi este artigo que quero agora partilhar...
Ser missionário na vida!
E eis que de repente chegou a hora de dizer adeus a Angola. Depois de regressarmos a Portugal fica um desejo imenso de tornar a viajar. Não simplesmente ir por ir, e lá estar por estar, mas sim partir para ajudar e aprender.
Durante este tempo que andámos por terras angolanas aprendemos e fizemos muitas coisas que nunca tínhamos feito na nossa vida “programada” e “controlada”: desde carpinteiros a pessoas de limpeza, de catequistas a formadores, de construtores a revisores de textos, de enfermeiros a professores, entre muitas outras coisas. Esta experiência irá ser marcante na medida em que ajudou a descobrir muitas das nossas capacidades adormecidas, as quais foram e serão sempre necessárias no nosso dia-a-dia. Angola fez despertar em nós o espírito trabalhador e o espírito de doação e de serviço, pois agora compreendemos o porquê do nosso comodismo: nunca precisamos de fazer mais para termos comida à mesa!
O povo africano ensinou-nos a trabalhar para alcançar o que precisamos, a trabalhar para ter o pão nosso de cada dia. Com eles aprendemos a necessidade e o valor de uma refeição diária (aqueles que a têm!).
Por causa de tudo isto estamos e continuaremos sempre alegres a recordar o nosso sonho que já é realidade e a ajudar outros a concretizar os seus sonhos.
No meio da miséria encontrámos a alegria. Por entre uma pluralidade de fés encontrámos a alegria em se ser cristão e em viver os ideias de Jesus. Por entre a falta de condições de saúde, saneamento e electricidade encontrámos a vida no seu espírito mais verdadeiro e puro: sacrifício e amor!
Voltámos de Angola, mas o nosso coração permanece lá. Na hora do adeus diziam os “nossos” meninos de rua: «Irmãos, vão-se embora e nunca mais se lembrarão de nós…». Mas nós dizemos agora que é impossível não nos vir à memória as muitas expressões alegres dos seus rostos. Crianças que não têm nada, mas que vivem com um sorriso constante.
Já nos perguntam quais as maiores dificuldades que por lá tivemos, pois é claro que nem tudo na vida são rosas, sempre existem os espinhos. Mas esses facilmente se esquecem. Depois de abrir os olhos pela manhã, só dávamos conta do dia passado quando à noite os tornávamos a fechar. Relógio, para quê? Em Angola tudo é feito com calma, só assim se compreende como uma mãe carrega o seu filho às costas e transporta 15 a 20 litros de água na cabeça, ou prepara a mandioca, ou anda a vender pelas ruas, ou lava a roupa da família, entre muitas outras coisas.
Outra coisa impressionante é que na paróquia onde trabalhámos, na hora da catequese (diga-se que são cerca de 5000 crianças na catequese) ou de qualquer acto litúrgico, no recinto de jogos tudo para e faz-se silêncio. É impressionante a atenção, a compenetração, a fé daquelas pessoas. As crianças, jovens e adultos com quem tivemos a ocasião de estabelecer alguma relação estão famintos de saber sempre mais e mais. Por vezes pensávamos no nosso continente europeu em que só nos preocupamos com o momento e, por vezes, não olhamos ao futuro. Os nossos jovens queriam aprender para poder ensinar. Alguns deles com o equivalente ao nosso 12.º ano, já eram professores. Mas é assim a vida de um país acabado de sair da guerra e, no qual, em cada rosto se vê espelhada a marca dessa mesma guerra.
“Sujámos os pés” e queremos que muitos outros o continuem a fazer. Nós, o grupo de 2004, já começámos a fazer projectos para os próximos tempos. Em toda esta viagem simplesmente pedimos a Deus que nos ajude e nos ilumine, para que saibamos pisar o caminho do bem e da verdade, olhando o irmão com olhos de amor e carinho e não com olhos de pena e de pesar, pois o amor e a caridade vão mais além de toda e qualquer uma das nossas lamentações. Agora só temos a agradecer a Jesus por nos ter concedido a graça desta experiência e pedir que, se for da sua vontade, ela se estenda e seja exemplo para muitos outros.
O grupo Guard’África está ao dispor de todos quantos quiserem contactar e quiserem partilhar experiências através do email:
guardafrica@yahoo.com.br. O grupo comemora os seus três anos de existência no dia 8 de Setembro e com o auxilio de Jesus e de todos esperamos que continue por muitos mais e bons anos.
Obrigado a todos pelas orações. Continuamos unidos neste espírito de alegria, de amor e de missão, pois só com Cristo: sorrindo se vive e servindo se ama!

1 comentário:

Maria disse...

Só vivendo se aprende, as palavras só em si sem a vivência, são fracas e nós só sabemos quando o nosso coração sangra em consonância com alguém e o vivemos.
Todos devíamos estar um tempo privados
de alguns bens para dar valor ás necessidades que existem.